O Parlamento da França derrubou, nesta segunda-feira, 8, o governo do primeiro-ministro François Bayrou, que pediu para se submeter a uma moção de confiança para obter apoio ao seu plano de cortes orçamentários que visava sanear as contas públicas.
A queda de Bayrou acontece durante a discussão sobre a dívida pública na França, com pedidos para a realização de novas eleições legislativas e até mesmo para a renúncia do presidente, Emmanuel Macron.
Sem surpresas, 364 deputados votaram contra, entre eles as oposições de esquerda e de extrema direita, anunciou a presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun-Pivet. Bayrou apresentará sua renúncia na terça-feira, segundo seu entorno.
Desde a fracassada antecipação eleitoral de 2024, a França vive uma profunda instabilidade política sem maiorias parlamentares estáveis, em um contexto de elevada dívida pública, que alcança cerca de 114% do PIB.
“Vocês podem derrubar o governo, mas não podem apagar a realidade”, disse Bayrou aos parlamentares, alertando-os, entre interrupções, sobre a situação de “emergência vital” enfrentada pela segunda economia da UE devido ao “superendividamento”.
O plano do premiê envolvia cortes de 44 bilhões de euros (R$ 279 bilhões) no orçamento e outras medidas, incluindo o fim de dois feriados. Os cidadãos franceses rejeitaram o plano, com manifestações convocadas nesta segunda-feira para comemorar a queda do premiê.
Os sindicatos e outros movimentos sociais franceses também convocaram protestos massivos contra os cortes para a quarta-feira, 10, e uma greve no dia 18. A pressão recai sobre Macron, que tem várias soluções possíveis, nenhuma delas isenta de riscos.
A líder de extrema direita, Marine Le Pen, considerou que Macron tem a obrigação moral de convocar eleições legislativas antecipadas.
Le Pen não poderia se candidatar às eleições porque foi condenada com uma pena de inelegibilidade por desvio de fundos públicos europeus. Seu julgamento em apelação ocorrerá entre 13 de janeiro e 12 de fevereiro.
Segundo as pesquisas, as eleições deixariam novamente uma Assembleia dividida em três blocos - esquerda, centro-direita e extrema direita - e sem maiorias estáveis, embora com uma ascensão do partido de Le Pen e uma queda do partido no poder.
Outra opção é a nomeação de um novo primeiro-ministro, que enfrentaria o desafio evidente de conciliar as demandas diversas da oposição.
Macron defendeu na semana passada olhar para a esquerda e tentar atrair a oposição socialista ao governo atual, formado por sua aliança centrista e pelo partido conservador Os Republicanos (LR).
“Estamos prontos, que venha nos buscar”, afirmou nesta segunda-feira o deputado socialista Boris Vallaud, que, no entanto, especificou que agora cabe à “esquerda”, vencedora das legislativas de 2024, formar governo.
O ex-primeiro-ministro e deputado oficialista Gabriel Attal propôs, por sua vez, um “acordo de interesse geral” entre forças políticas durante os próximos 18 meses para superar o bloqueio até o final do mandato de Macron em 2027.
No entanto, as linhas vermelhas e os vetos cruzados de cada partido tornam quase impossível garantir uma maioria estável, em um contexto de pressão crescente nos mercados para que a França equilibre suas contas públicas.
Na próxima sexta-feira, a agência Fitch deve anunciar sua nova classificação da dívida soberana da França. Em março, advertiu que rebaixaria a nota do país se o governo não conseguisse implementar um “plano confiável” para permitir a redução da dívida a médio prazo.
A queda de um novo governo poderia levar Macron à renúncia. O presidente já descartou a possibilidade, desejada por 64% dos franceses, segundo uma recente pesquisa da Odoxa-Backbone, e que a esquerda radical defende.
“Bayrou caiu (...) Macron agora está na linha de frente ao povo. Ele também deve ir embora”, escreveu o líder esquerdista Jean-Luc Mélenchon na rede social X.