O presidente da Argentina, Javier Milei, foi recebido pela primeira vez por Donald Trump na Casa Branca nesta terça-feira, 14, onde recebeu um novo respaldo do aliado americano. O encontro ocorre em um momento em que o argentino busca aumentar sua popularidade antes das eleições legislativas de 26 de outubro e para selar um enorme resgate financeiro dos Estados Unidos ao seu país.
Em um momento de perguntas e respostas com jornalistas antes de um almoço de negócios, Trump condicionou qualquer ajuda financeira dos EUA à Argentina aos resultados das eleições. “Se ele não ganhar, não vamos perder nosso tempo”, disse o americano. “Nossos acordos estão sujeitos a quem vencer a eleição. Porque com um socialista, fazer investimentos é muito diferente”
Não se esperava grandes anúncios deste encontro. A visita serve mais de respaldo do enorme apoio de Trump a Milei. Hoje o argentino é um dos maiores aliados do republicano, especialmente na América Latina. A amizade já trouxe benefícios para Buenos Aires, que recentemente recebeu a promessa de um resgate de US$20 bilhões dos Estados Unidos.
Trump também projetou as futuras eleições presidenciais da Argentina, que serão em 2027, nas quais disse que não apoiaria um vencedor de esquerda. “Se Milei perder as eleições, não seremos generosos com a Argentina”, disse.
Seu secretário de Tesouro, Scott Bessent, endossou que o apoio americano está condicionado à continuidade das políticas econômicas de Milei.
O encontro entre os dois líderes estava previsto para começar às 13h locais (14h de Brasília), mas atrasou mais de quarenta minutos. Eles se cumprimentaram na entrada da Casa Branca, onde os repórteres pediram que o americano enviasse uma mensagem aos argentinos. “Nós amamos vocês. Vocês têm um grande líder”, respondeu ao fazer o sinal de joia ao lado de um sorridente Milei.
O libertário não teve a tradicional reunião no Sala Oval da Casa Branca, como costuma ter os líderes em visita à residência do presidente americano. Sem apresentar explicações, segundo a imprensa argentina, Trump cancelou a bilateral de 15 minutos que eles teriam e decidiu que após o aperto de mão na porta da residência eles já iriam direto para um almoço de negócios.
Foi antes desse almoço que Trump aceitou receber perguntas de jornalistas, como geralmente faz no Salão Oval. “As eleições estão vindo em breve, vai ser uma eleição muito importante e serão assistidas pelo mundo inteiro”, falou Trump sobre as legislativas argentinas de outubro, nas quais se renovarão metade dos assentos do Congresso e um terço do Senado. Está em jogo nessas eleições o futuro da governabilidade e do projeto econômico de Milei.
“Queremos ajudar a Argentina. Sempre vamos nos ajudar, mas também queremos ajudar a Argentina”, continuou o republicano. “Vamos fazer negócios com a Argentina”. Quando questionado por repórteres o que os EUA ganham ajudando Buenos Aires, ele respondeu que “a Argentina é um dos países mais lindos do mundo”.
Milei falou muito pouco, se limitando a agradecer a acolhida do americano. Ele elogiou Trump pelo “grande sucesso de alcançar a paz no Oriente Médio e trazer de volta os reféns”. O libertário presenteou Trump com um carta escrita pelas famílias dos reféns argentinos libertados da Faixa de Gaza.
O republicano também mencionou o Brasil e sua conversa com Luiz Inácio Lula da Silva em uma de suas respostas. Ele estava citando países da América Latina que tem ficado menos hostis aos EUA e mencionou que ele e Lula “se deram muito bem”.
O americano e o argentino já se encontraram em outras ocasiões no passado, como na ONU e em Mar-a-Lago, mas não na residência oficial do presidente.
Milei chegou a Washington com dois objetivos: um era negociar isenções ou reduções tarifárias dos EUA para produtos argentinos. O outro era ver como os Estados Unidos implementarão essa linha de swap de moeda de US$20 bilhões para sustentar o peso argentino e reabastecer suas exauridas reservas de moeda estrangeira antes das cruciais eleições de meio de mandato.
O governo Trump tomou uma decisão altamente incomum de intervir no mercado de câmbio da Argentina após o partido de Milei, o A Liberdade Avança, sofrer uma perda esmagadora nas eleições legislativas da província de Buenos Aires.
Junto com reveses no Congresso dominado pela oposição, a derrota esmagadora do partido criou uma crise de confiança, enquanto os eleitores da província registravam sua frustração com o aumento do desemprego, a contração da atividade econômica e os escândalos de corrupção em gestação.
Alarmado que isso poderia sinalizar o fim do apoio popular ao programa de livre mercado de Milei, investidores descarregaram títulos argentinos e venderam pesos.
O Tesouro da Argentina começou a perder reservas valiosas de dólar a um ritmo febril, tentando sustentar a moeda e manter sua taxa de câmbio dentro da banda de negociação estabelecida como parte do recente acordo de US$20 bilhões do país com o Fundo Monetário Internacional.
Mas, à medida que o peso continuava a desvalorizar, Milei ficou desesperado.
Ele se encontrou com Trump em 23 de setembro enquanto estava na cidade de Nova York para a Assembleia Geral das Nações Unidas. Uma enxurrada de tapinhas nas costas, apertos de mão e elogios mútuos entre os dois rapidamente deu lugar à promessa pública do Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, de oferecer à Argentina uma sobrevivência de US$20 bilhões.
Os mercados comemoraram, e os investidores respiraram aliviados.
Nos dias que se seguiram, o Ministro da Economia, Luis Caputo, passou horas em reuniões em Washington tentando fechar o acordo.
A garantia veio na última quinta-feira, quando Bessent anunciou que os EUA permitiriam que a Argentina trocasse até 20 bilhões em pesos por uma soma igual em dólares. Dizendo que o sucesso do programa de Milei era “de importância sistêmica”, Bessent acrescentou que o Tesouro dos EUA comprou diretamente uma quantidade não especificada de pesos.
Para o governo Trump, o momento foi inconveniente, pois luta para gerir as ópticas de resgatar um devedor serial pela nona vez em meio a um fechamento do governo dos EUA que levou a demissões em massa.
Mas para a Argentina, veio na hora certa.
Ciente de como uma moeda fraca poderia ameaçar sua principal conquista de controlar a inflação e prejudicar sua popularidade, Milei espera evitar o que muitos economistas veem como uma desvalorização inescapável da moeda até depois das eleições de meio de mandato de 26 de outubro.