A confirmação da localização do corpo do pianista Francisco Tenório Cerqueira Júnior, o Tenório Júnior, quase 50 anos após seu desaparecimento em Buenos Aires, foi recebida com dor e emoção pela família. Em carta assinada por três de seus filhos — Elisa Andrea, Francisco Tenório Neto e Margarida Maria — eles relataram sentimentos ambíguos diante da notícia.
“Recebemos a notícia da identificação do corpo de nosso pai com surpresa, claro, e um misto de alívio e tristeza. Alívio porque, finalmente, podemos saber com mais segurança o que aconteceu com ele naquele triste março de 1976. De alguma maneira, estaremos mais próximos. Tristeza pela confirmação de que Tenório foi vítima da violência e enterrado como um desconhecido, longe da família, dos amigos, dos parceiros de música”, escreveram.
Tenório Júnior desapareceu em março de 1976, quando tinha 35 anos, durante uma turnê com Vinícius de Moraes e Toquinho. Ele foi sequestrado, morto a tiros e enterrado em uma vala comum, segundo a Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF), responsável pela identificação. À época, era pai de quatro filhos pequenos, e o quinto nasceu um mês após seu desaparecimento.
Na carta, os filhos também recordaram a longa espera por respostas: “Durante muito tempo, mesmo sabendo que era improvável, alimentamos a esperança de revê-lo. De que um dia a porta da casa se abrisse e ele entraria. O ‘Papú’, como o chamávamos. Com o tempo, compreendemos que não teríamos mais respostas. É um choque saber que ele estava lá o tempo todo.”
Além da dor da perda, a família cobrou responsabilização: “Ainda queremos e precisamos de respostas. Quem matou Tenório? Por quê? Por que matar um homem sem nenhum envolvimento político, que só vivia para a música?”
Os filhos também prestaram homenagem à mãe, Carmen, que sustentou a família na ausência do marido e chegou a depor na Argentina sobre o caso. “A dor não irá embora nunca, mas a justiça pode trazer conforto”, concluíram.
O governo brasileiro, em nota do Itamaraty, agradeceu à Justiça e à Procuradoria de Crimes Contra a Humanidade da Argentina pelo trabalho, destacando a importância da busca por memória, verdade e justiça para as vítimas das ditaduras militares na América Latina.