18/04/2020 às 11h56min - Atualizada em 18/04/2020 às 11h56min

“Negar a pandemia é baixa intelectualidade”

Tribuna ouviu um sociólogo e um historiador para explicar o que leva pessoas a não acreditarem nos riscos do coronavírus em todo o mundo

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Por incrível que pareça, há quem acredite ser a pandemia de coronavírus, causador da Covid-19, um plano comunista – com o apoio da Rede Globo – para derrubar Jair Bolsonaro (sem partido) da Presidência da República. Ou seja, países e governantes espalhados pelo planeta estariam sendo enganados por esquerdistas brasileiros que têm por objetivo tirar o “enviado dos céus” para livrar o país do comunismo. Pode parecer piada, mas o negacionismo diante a atual crise, em muita gente, está neste nível. Para o sociólogo Carlos Martins, o terreno fértil para isso é a “baixa elaboração intelectual” do brasileiro médio.

Na última terça-feira (14), na cidade de Araraquara, interior de São Paulo, uma mulher foi presa por se negar a cumprir o decreto de isolamento local. O vídeo do momento ganhou as redes sociais esta semana. Ao argumentar o motivo de se expor ao vírus, ela afirmou “esse circo de coronavírus não funciona comigo. Isso foi armado para implantar uma ditadura comunista”. O negacionismo em relação à pandemia também pode ser detectado em números. Em Alagoas, por exemplo, apenas 52,47% da população cumpre as medidas de isolamento social. Os dados são de um monitoramento do Governo do Estado feito a partir do sinal de telefones celulares. Na quinta- feira (9), esse índice foi apenas de 46,5%.

“Acredito que essa situação passa pelo viés de confirmação. As pessoas quando compram um carro, vão buscar ouvir as coisas boas sobre aquele carro, não querem ouvir falar nada de ruim a respeito por quererem confirmar a tomada de decisão que fizeram. Ou seja, o carro é sempre bom”, exemplifica.

“Somado a isso, se tem outros fatores. Tem a baixa elaboração intelectual que a população brasileira tem, em sua grande maioria. Associado a isso, há um presidente que tem o mesmo perfil intelectual e psicológico desse brasileiro com baixa elaboração intelectual, contaminado por uma influência política conservadora, que diz que o trabalhador de vir ao trabalho e se arriscar a contrair o covid-19, por exemplo”, completa o sociólogo.

Coincidência ou não, entre os estados do Nordeste, Alagoas é aquele em que Jair Bolsonaro tem maiores índices de aprovação. Mesmo antes da crise gerada pela pandemia, os índices de aprovação do presidente já estavam em baixa, mas entre os alagoanos, não. Em março de 2019, ele bateu os 54% de aprovação no estado, segundo a Paraná Pesquisas.

Ainda segundo Carlos Martins, a mistura entre política e religião, somada a outros fatores, gera uma espécie de cegueira coletiva.

“A influência de Jair Bolsonaro sobre muitas dessas pessoas ainda é forte. Veja, antes de ser eleito, ele se posicionou como racista, misógino, como fascista, como um imbecil ignorante e corrupto que se utiliza do setor público para gozar de privilégios. Mas, no entanto, parte da população elege esse cara. É na mesma linha do viés de confirmação. Se esse mesmo sujeito diz à população para ir à rua, e faz isso, terá muita gente que o seguirá, pois está cega e segue a onda”, diz.

“Também tem o setor religioso que apresenta rezas como elemento de cura. Acredito que esse setor dá suporte aos seguidores do Bolsonaro. Os sacerdotes deste setor, predominantemente evangélico, têm muita influência e os fiéis acreditam na lógica de que se forem tementes a Deus estarão protegidos e poderão se colocar em situação de risco. E é importante ressaltar que parte considerável do empresariado é evangélico. É essa soma de elementos, a meu ver, que gera o que temos observado, com esse comportamento contrário às orientações internacionais. É uma onda cega, uma alienação que levará as pessoas a cometer todo o tipo de erro para atender a um chamado”, completa Carlos Martins.

Historiador destaca que negacionismo ocorreu em outros momentos

Já houve outros momentos em que a população negou tratamentos a doenças, como ressalta o historiador Clayton Rosas, a exemplo da “Revolta da Vacina”, em 1904, e a “Gripe Espanhola”, em 1918.

“Na Revolta da Vacina, que se deu somente no Rio de Janeiro, muita gente se negou a tomar o medicamento, então se deu poderes os agentes de saúde para entrarem nas casas e aplicarem o remédio à força. A forma desastrada e autoritária do governo influenciou o negacionismo com as doenças que a vacina combatia. Já em relação à Gripe Espanhola, além de o serviço de saúde pública ser ineficiente, havia pouca informação e de cunho duvidoso por causa da Primeira Guerra Mundial. Daí, a população não acreditava na alta letalidade da doença. Para se ter ideia, o nome ‘Espanhola’ se deu porque apenas na Espanha se fazia divulgação maciça da doença, que não surgiu lá. Suspeita-se que seja oriunda dos Estados Unidos”, explica o historiador.

Sobre o negacionismo acerca da pandemia de coronavírus, Clayton Rosas aponta semelhanças com o período da Gripe Espanhola. Ao menos em relação à desinformação. Para ele, boa parte da culpa é do presidente Jair Bolsonaro.

“Esse negacionismo se dá, em minha avaliação, por não termos uma orientação centralizada pelo Governo Federal, principalmente pela atitude do próprio presidente da República ao ir de encontro a todas as recomendações da OMS, do seu próprio Ministério da Saúde e de toda comunidade científica mundial e brasileira, e infringir regras definidas como essenciais, como o isolamento social”, comenta. “Por causa do enfrentamento político-ideológico que passamos nesses últimos cinco anos, o presidente da República leva à população um discurso de descrença em relação à covid-19, relativiza o perigo desta doença e coloca em dúvida o momento em que vivemos. Estamos numa crise sem precedentes na história na saúde pública, não só no Brasil, mas em todo o mundo”, completa Clayton Rosas.

fonte/tribunahoje.com


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